
"Um sussurro, um praguejar, um olhar surdo, uma expressão fechada, e um pedido de amor encerrado num baú bafiento na sala ao fundo, da velha barraca da avó Matilde."
Fora assim, que a nossa história fora descrita num pálido papel esbranquiçado, que julgavas esquecido, a marcar a última página, do último livro que ousaras ler. Um soslaio bastara, e uma torrente de saudade se esbateu sobre mim, em forma de grossas lágrimas de sabor a mar. Tinhas partido com a mesma fugacidade com que entraste. Saíste porém delicadamente e em segredo, contrastando com os estragos que causaste assim que cruzaste o teu olhar com o meu. Eras leve, seguro e jovem. Eu não era nada. Tinhas o teu singular sorriso cinematográfico, o charme dos cinquenta, e a beleza dos vinte, e tinhas o jeito... o jeito a que nunca dei nome. Apenas o jeito era peculiar. Eu tinha a solidão. Lembro-me do dia em que tropeçaste na ousadia de me convidares para um café. Não gosto de café. Mas que bom foi saborear aquele amargo café. Com o tempo trocámos as borras amargas, pelo sumo fresco na cama pela manhã, trocámos os sorrisos de final de tarde, por tórridos beijos à chuva de Fevereiro. Mas a chuva secou, e a fruta apodreceu, o tempo passou, e a tua juventude deu as boas vindas a um cinzento adulto responsável. E eu, eu dei as boas vindas à eterna solidão que migrara de novo para dentro de mim.
E no final, quando as atitudes foram reveladas pelos comportamentos, a tua febril virilidade decidiu partir. Preferindo as palavras doces de um decote de mil homens, ao meu amor sincero, à solidão de uma mulher de um homem só. Sobrou o papel esbranquiçado, os ingredientes de uma vida a dois, e as palavras que te lancei: "Bate com a porta com toda a força, vou esquecer o teu nome! Mas não ouses ligar, se o fizeres querer-te-ei de volta e o meu coração tem somente uma vida."
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