domingo, 4 de setembro de 2011

Ciúme. De uma maneira imprudente o ciúme surge. Podia ser um gato escondido, uma folha que cai, um poro que se abre, uma janela que se fecha. Ciúme. Ele entra pelos olhos, faz formigueiro no cérebro, range nos joelhos. Ciúme. Do dia para a noite, ou como a avó Elisa diz - enquanto o diabo esfrega um olho -, qualquer uma de nós dava um pontapé no rabo ao Sherlock Holmes e punha o Watson no desemprego. Ciúme. Quem nunca teve? Eu por exemplo, sinto ciúmes das pernas da minha vizinha; ciúmes do cão que arrecada os primeiros beijinhos de bom dia nesta casa; ciúmes da velhota do rés-do-chão que mora com o neto , que sei, sei e imagino, sei e tenho suores, não sei, mas decerto sai do banho com a toalha a sussurrar "caio não caio, caio não caio"; ciúmes da miúda que deve chegar ás estrelas com aquelas pernas até ao pescoço; ciúmes de quem dança com pés de fada; ciúmes dos estúpidos dos quilos, dos infinitos bolos, das asquerosas calorias que o moreno do rapaz come sem saber onde vão parar; ciúmes da pele branca, dos olhos cinzentos e cabelos ruivos que chegam às coxas da senhora que conta carros na estrada mais escondida da minha aldeia. Ciúme. Só a palavra é suja, e soa mal, até aos olhos da gramática a palavra é grave. Grave. Ciúme. Os ciúmes são graves. Quando o sentirem, farão como todas nós. Ele vai invadir-nos, vai querer saltar, quer por palavras, quer por olhares matadores, quer por falsos sorrisos cinematográficos. E quando acharem o vosso alvo, vão estar calmas, vão sorrir, e não vão fazer rigorosamente nada. Mas vocês sabem, só vocês saberão, que no vosso âmago a mataram três vezes, e no final, nos vossos sonhos, dançaram até de manhã em cima do seu caixão. E prometem nunca mais deixar que ele se apodere de vocês. Mas ele volta, ai se volta, prometo que volta, e vem sempre disfarçado. Conclusão...

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